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Brasília, 7 de fevereiro de 2012 www.fenep.org.br
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Artigo 6 - Reforma de Conceito

Cristovam Buarque


A proposta de Reforma Universitária tem o mérito de colocar em debate as bases para uma reorientação do ensino superior brasileiro. Tem sido criticada pelo que apresenta, mas sua maior falha está nos conceitos que lhe serviram de base. Primeiro conceito errado: trata apenas de parte da educação, e não de toda. Enquanto a educação básica não for reformada, a universidade não terá qualidade total. Com apenas 1/3 de jovens concluindo o ensino médio, estamos desperdiçando o potencial de milhões de cérebros. Com um ensino médio sem qualidade, condenamos a universidade a receber jovens ainda não preparados. O bom desempenho das universidades de outros países não acontece porque eles são mais inteligentes, mas sim porque têm a probabilidade maior de ter bons alunos, pois é possível escolher entre todos e não apenas entre poucos de seus jovens.


O segundo equívoco é continuar tratando de universidade e não de ensino superior. No mundo de hoje, o ensino superior não cabe mais dentro de universidades. Ele se espalha por diferentes cursos, independentes, paralelos, às vezes por pessoas isoladas, outras vezes por redes de internet. Aprisionada dentro do conceito de universidade, a Reforma não durará mais do que alguns anos. Também é equivocado tratar de estatal versus particular, conforme a propriedade da instituição, quando na verdade o choque é entre público e privado, conforme a formação adquirida. Quando um aluno estuda para ser professor, ele recebe uma formação de interesse público, mesmo quando sua instituição seja propriedade de um particular, e quando estuda para servir apenas aos seus próprios interesses, ele recebe uma formação privada, mesmo que paga pelo povo, através de uma universidade gratuita estatal. O "campus" e não "rede" é outro erro de conceito. Daqui para frente, o lugar da formação de nível superior terá cada vez menos um endereço territorial e mais um endereço eletrônico. A formação não se fará mais prisioneira de um campus ela terá a liberdade das redes, sem localização geográfica, unindo as instituições de ensino planetariamente. A


Reforma do ensino superior não pode se concentrar no velho conceito de diploma, e sim se comprometer com o conceito de competência. O que vale hoje não é um papel pendurado na parede, mas a quantidade de conhecimento armazenada na cabeça. Também não vale o conhecimento arquivado, mas aquele que é capaz de adaptar-se às novas exigências, um saber criativo, reciclável a cada momento. No lugar de curso, a Reforma deveria usar o conceito de formação. A Reforma deveria abolir o conceito de ex-aluno. A universidade deve ser permanente. Até o último dia o aluno deve estar estudando, ou não será mais um profissional competente. No lugar de disciplinas o novo ensino superior deve trabalhar com temas. Os temas irão permanentemente criar novas disciplinas e descartar outras como obsoletas.


Não se trata mais de mudar a organização e a forma de financiamento, mas a estrutura da universidade. Com núcleos temáticos e não apenas departamentos, com a prática multidisciplinar e não apenas unidisciplinar. A Reforma também parte da idéia de que é preciso popularizar a universidade, mas isso é o mesmo que convocar todos os jogadores do Brasil para serem da seleção brasileira. No lugar de popularizar a universidade, temos que popularizar a conclusão do ensino médio na rede pública, fazer com que os melhores, independentemente da renda familiar, entrem no ensino superior e sirvam ao País, ao Povo e à Humanidade. Antes da Reforma Universitária é preciso fazer uma Reforma do Conceito que lhe serve de base.


Jornal do Commercio - Recife PE







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