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Cristovam Buarque
A proposta de Reforma Universitária tem o mérito de
colocar em debate as bases para uma reorientação do ensino superior brasileiro. Tem sido
criticada pelo que apresenta, mas sua maior falha está nos conceitos que lhe serviram de
base. Primeiro conceito errado: trata apenas de parte da educação, e não de toda.
Enquanto a educação básica não for reformada, a universidade não terá qualidade
total. Com apenas 1/3 de jovens concluindo o ensino médio, estamos desperdiçando o
potencial de milhões de cérebros. Com um ensino médio sem qualidade, condenamos a
universidade a receber jovens ainda não preparados. O bom desempenho das universidades de
outros países não acontece porque eles são mais inteligentes, mas sim porque têm a
probabilidade maior de ter bons alunos, pois é possível escolher entre todos e não
apenas entre poucos de seus jovens.
O segundo equívoco é continuar tratando de universidade e
não de ensino superior. No mundo de hoje, o ensino superior não cabe mais dentro de
universidades. Ele se espalha por diferentes cursos, independentes, paralelos, às vezes
por pessoas isoladas, outras vezes por redes de internet. Aprisionada dentro do conceito
de universidade, a Reforma não durará mais do que alguns anos. Também é equivocado
tratar de estatal versus particular, conforme a propriedade da instituição, quando na
verdade o choque é entre público e privado, conforme a formação adquirida. Quando um
aluno estuda para ser professor, ele recebe uma formação de interesse público, mesmo
quando sua instituição seja propriedade de um particular, e quando estuda para servir
apenas aos seus próprios interesses, ele recebe uma formação privada, mesmo que paga
pelo povo, através de uma universidade gratuita estatal. O "campus" e não
"rede" é outro erro de conceito. Daqui para frente, o lugar da formação de
nível superior terá cada vez menos um endereço territorial e mais um endereço
eletrônico. A formação não se fará mais prisioneira de um campus ela terá a
liberdade das redes, sem localização geográfica, unindo as instituições de ensino
planetariamente. A
Reforma do ensino superior não pode se concentrar no velho
conceito de diploma, e sim se comprometer com o conceito de competência. O que vale hoje
não é um papel pendurado na parede, mas a quantidade de conhecimento armazenada na
cabeça. Também não vale o conhecimento arquivado, mas aquele que é capaz de adaptar-se
às novas exigências, um saber criativo, reciclável a cada momento. No lugar de curso, a
Reforma deveria usar o conceito de formação. A Reforma deveria abolir o conceito de
ex-aluno. A universidade deve ser permanente. Até o último dia o aluno deve estar
estudando, ou não será mais um profissional competente. No lugar de disciplinas o novo
ensino superior deve trabalhar com temas. Os temas irão permanentemente criar novas
disciplinas e descartar outras como obsoletas.
Não se trata mais de mudar a organização e a forma de
financiamento, mas a estrutura da universidade. Com núcleos temáticos e não apenas
departamentos, com a prática multidisciplinar e não apenas unidisciplinar. A Reforma
também parte da idéia de que é preciso popularizar a universidade, mas isso é o mesmo
que convocar todos os jogadores do Brasil para serem da seleção brasileira. No lugar de
popularizar a universidade, temos que popularizar a conclusão do ensino médio na rede
pública, fazer com que os melhores, independentemente da renda familiar, entrem no ensino
superior e sirvam ao País, ao Povo e à Humanidade. Antes da Reforma Universitária é
preciso fazer uma Reforma do Conceito que lhe serve de base.
Jornal do Commercio - Recife PE
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